sábado, 10 de março de 2007

UM POUCO SOBRE O CARNAVAL

O que você costuma fazer no carnaval? Talvez não goste dessa folia, e, tenha certeza, sempre houve uma divisão entre os que gostam de brincar e os que querem sossego. Mas, poderá achar interessante conhecer um pouco das origens dessa festa popular que, no mundo todo, lembra o Brasil. Nosso país é tido como sinônimo de carnaval.

A etimologia da palavra carnaval é bem diversificada. Estudiosos defendem que no período da quaresma (40 dias entre a quarta-feira de cinzas e o domingo de páscoa), os fiéis da Igreja Católica não deveriam comer carne, em respeito à memória da via-sacra percorrida por Jesus Cristo. Daí surge a palavra carnaval, do latim carnem levare, que significa "privação de carne". Ainda existem os que defendem ter se originado de carrum navale, um barco alegórico com que os romanos abriam certos festejos. Era levado por animais cobertos de enfeites e montado por homens e mulheres, todos nus e cantando obscenidades. Roma endoidecia no carnaval: sem distinção de classe ou idade, romanos e escravos diziam o que queriam a quem queriam, em absoluta libertinagem. No entanto, popularmente acredita-se que a expressão original era carnem vale, ou seja, "adeus, carne!". A interpretação do povo está errada, mas certamente tem mais do espírito carnavalesco.

Essa festa popular não tem origens muito claras, mas acredita-se que, há mais de 2000 anos, comemorava-se na Europa a chegada da primavera, que lá acontece em março. Esse agradecimento aos deuses pela volta do clima agradável e bom para a agricultura pode ter evoluído para o carnaval moderno. Outra origem possível são as celebrações da Roma antiga, como as festas libertinas em homenagem aos deuses Baco e Saturno. No entanto, as festas mudaram muito daquele tempo para cá, principalmente durante o século 20.

O carnaval é uma festa popular de características regionais próprias, que quase sempre inclui folias, diversões, bailes, fantasias e músicas. As comemorações acontecem em três dias, do domingo à terça-feira. No Brasil, um país alegre por natureza, o "sábado de carnaval" também é dia de festa, sem falar nas diversas folias pré-carnavalescas e nas micaretas (carnavais fora de época) que têm se multiplicado a cada dia. Em outros países, também se festeja o período carnavalesco. Entre eles, a Itália, a França e a Espanha. Nos Estados Unidos, é tradicional o desfile da cidade de Nova Orleans.

A primeira folia de carnaval do Brasil foi o Entrudo, que acontecia já no início do período colonial. O entrudo era uma brincadeira violenta que consistia em atirar baldes d'água, balões cheios de vinagre ou groselha, e pós como cal e farinha, com a intenção de molhar ou sujar as pessoas que passavam pelos foliões. A brincadeira foi proibida inúmeras vezes, mas ela só desapareceu no início do século 20, com a popularização do confete.

O entrudo estimulou a criação de festas em local fechado, para um público selecionado que queria se divertir civilizadamente . Assim, em 1840 surgem os bailes de carnaval, inspirados nos bailes de máscaras realizados na Europa. O sucesso incentivou os donos de casas de espetáculos a promoverem bailes próprios. Hoje, essas festas não são tão elitistas, e as máscaras praticamente não existem, pois os foliões não têm mais medo de serem reconhecidos na festa.

Os tambores apareceram pela primeira vez na metade do século 19, no chamado Zé-Pereira (espécie de passeata de foliões pelas nas ruas do Rio de Janeiro). O zé-pereira desapareceu meio século depois, ficando em seu lugar o Corso (um passeio de carros e caminhões enfeitados). Os foliões em seus veículos, brincavam com as pessoas nas calçadas, cantando músicas de carnaval e jogando confetes uns nos outros. O corso desapareceu na década de 1930, junto com os caros veículos de capota aberta.

A organização da folia surgiu no Rio de Janeiro com as Grandes Sociedades. Esses clubes de foliões, surgidos na década de 1850, tiveram o seu auge de popularidade no fim daquele século. Ainda hoje desfilam no carnaval carioca, mas atraem pouquíssimo público. As ‘grandes sociedades’, embora tenham origem diferente das escolas de samba, apresentam-se com elementos comuns, como comissão de frente e carros alegóricos, ao som de suas bandas. Tinham prestígio porque contavam com intelectuais e políticos importantes. Entre os famosos, Olavo Bilac, Quintino Bocaiúva e José do Patrocínio. Com isso, as críticas sociais e políticas que serviam de tema para os carros alegóricos eram muito significativas.

O carnaval crescia a cada ano, passando a fazer parte da realidade cultural do país, enquanto na Europa estava em decadência. Nessa época, a classe média invadia as ruas com outra novidade européia: os desfiles de carros alegóricos. O pioneiro da idéia foi o romancista José de Alencar, um dos fundadores de uma Sociedade denominada SUMIDADES CARNAVALESCAS (1855); agremiação que, com alegorias e sátiras ao governo deu novos ares ao carnaval. Em 1856, outra sociedade tomou as ruas: a União Veneziana. Era a coqueluche do Império. Hoje nada disso existe mais, ou se tem carros alegóricos luxuosos, ou se tem “nada”.

Os Ranchos ou Cordões (outro de festejo do início do século 20), se originaram no folclórico Reisado baiano (encenação de uma caminhada de pastores e pastoras até Belém). Durante essa caminhada, os participantes cantavam e batiam de porta em porta pedindo agasalhos. Os Reisados tinham como uma de suas principais qualidades a beleza e o luxo de suas fantasias. Os ranchos cariocas não ficaram atrás, eram bem organizados e evoluídos. As velhas marchinhas de carnaval se popularizavam ao serem cantadas pelos ranchos, numa época em que ainda não havia rádio.

As Escolas de Samba também surgiram no Rio de Janeiro. Em boa parte, se inspiravam nos ranchos, de onde veio a tradição, por exemplo, do casal de mestre-sala e porta-bandeira. O primeiro grupo a ser criado com o título de "escola de samba" foi o ‘Deixa Falar’, em 1928 no bairro do Estácio. Seguiu-se a ele muitos outros, em diversos bairros da cidade. Entre as escolas da época ainda em atividade estão a Mangueira e a Portela, que se chamava ‘Vai Como Pode’, mas teve de mudar de nome anos depois por exigência da polícia.

Os desfiles das escolas caíram logo no gosto popular. A praça Onze se tornou pequena para abrigar a quantidade cada vez maior de foliões e de público, e as escolas passaram a desfilar nas avenidas do centro do Rio nos anos 70. Nessa época, com a mudança na estética das fantasias, o carnaval se tornou muito caro, e os bicheiros passaram a financiar as escolas. A modernização da administração das escolas nos anos 80 permitiu que os desfiles continuassem acontecendo com o mesmo brilho, apesar da prisão dos grandes bicheiros, que financiavam a festa.

Os desfiles tornaram-se praticamente sinônimo de carnaval no centro-sul do Brasil. No Nordeste, as festas mais populares do carnaval são as de rua. Na Bahia, o trio elétrico, criado em 1950 pelo lendário Dodô e agora espalhado por todo o país, e em Pernambuco, a dança dos blocos de frevo. Foi assim, com tanta gente participando das folias, que o carnaval brasileiro se tornou o maior e mais conhecido do mundo.

A maioria das correntes de estudo concordam que o nome carnaval tem origem religiosa. Apesar disso, o carnaval conservou seu espírito pagão, de algazarra e impertinência. Hoje, também assumiu uma postura de denúncia e crítica dos problemas sociais e políticos. Mas, sempre regado a descontração e irreverência.

Rodolfo Neto - Cientista Social - Antropólogo/UFRN


PARA LER A RESPEITO:

BRANDÃO, Carlos R. A cultura na rua. Papirus, 1989.
DaMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis - para uma sociologia do dilema brasileiro. Jorge Zahar, 1978.
DEL PRIORE, Mary. Festas e utopias no Brasil colonial. Brasiliense, 1994.
QUEIROZ, Maria Isaura P. Carnaval brasileiro - O vivido e o mito. Brasiliense, 1992.